domingo, 18 de junho de 2017

ordenamento do território: como vai ser daqui para a frente




















foto: João Porfírio - Observador


Tem sido assim:
No litoral, uma enorme faixa de areia doirada que se estende por todo o território, de norte a sul. É fresquinha, atrai forasteiros e é habitada por empregados de mesa.
Aproximadamente a meio dessa faixa há uma grande mancha de palácios habitados por ananases. Estatisticamente são irrelevantes, mas a menção conta porque são quem mais ordena. E para obstar a que a pátria fique sem leme, um desses palácios até é à prova de sismo.
Dessa faixa até à fronteira com o reino de castela, há um gigantesco mar cinzento de eucaliptos. E estou-me em espanto que nenhum indígena tenha ainda espadachado a garantia de que “temos a maior mancha contínua de eucaliptal em todo o mundo”. Nesta zona do território é onde se deixam para morrer os velhos que já não podem com as sacholas. A esta ortotanásia é necessário juntar alguns braços em tempo de vida ativa. Sem vocação para ser empregados de mesa ou sem grande vontade para morrer de fome, lá vão plantando uns eucaliptos à beira do poço. Depois, “as celuloses” compram a lenha, moem aquilo tudo bem moídinho com muita água, despejam nos rios a água dos banhos e compram mais lenha.
Não tenho a certeza, mas se formos a ver bem, “as celuloses” são “geridas” por um ou outro ananas que por força de um azar qualquer, é levado a invernar de um qualquer palácio. Estará por lá um ou outro secretário de estado, ministro ou ananas qualquer preteritamente ligado ao “ordenamento”, à “agricultura”, ao “ qualquer coisa território”, à “administração interna”. Estes últimos são “internos” para se distinguirem dos da “administração externa” porque também deve haver ananases a administrar-se lá por fora pelo estrangeiro. Não haverá acaso no caso de “as celuloses” terem abichado uns milhões valentes de “subsídios” há não mais do que um ou dois meses atrás.

De ontem para hoje aconteceu “a tragédia”, a “catástrofe natural”. Enfim, os deuses, nos seus infinitos caprichos, zangaram-se connosco e o céu disparou fogo sobre as nossas cabeças.
O tiririca lá fez o seu número de princesa do povo, chorou mortos ainda por contar e já voou para paragens mais frescas. Ou onde sopre a necessidade de um qualquer esforço diplomático mais avantajado. Como o Senegal, por exemplo. Ainda não se sabe muito bem. Os outros ananases lá se arrancaram ao ameno das areias e foram-se ao fumo dos mesmos números; o Costa César até já disse que está muito chocado e que “infelizmente, esta é a maior tragédia” e assim.
A “proteção civil” é todo um modo de vida para os ananases.
A seleção de futebol vai fazer um minuto de silêncio.

(por esta altura, não muito atrás, já haveria quem me estivesse a batizar de populista e demagógico nesta minha “leitura” do território. Mas estou em suspeitar que já só os ananases cospem este género de insultos. Estamos quase todos a ficar muito populistas e demagógicos)

Daqui para a frente:
Haverá um “prós e contras” sobre ” o território” que nos dará a conhecer o que pensam não apenas os especialistas que são “pró” mas também os que são “contra” . Haverá imensos debates e artigos de opinião sobre a floresta e esta coisa das “tragédias”. Porque isto é uma democracia viva e participada. Não é nenhuma república de ananases.
Depois - com as primeiras chuvas, ou talvez antes - haverá momentos de solidariedade com a seleção.

Não é necessário possuir uma bola de cristal para saber que se vai passar tudo exatamente assim daqui para a frente. Com mais ou menos cadáveres, o nosso daqui para a frente vai sendo assim há uns bons trinta anos. Mais coisa, menos coisa.

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* 21/06/2017 Este texto foi escrito de sábado para domingo, em simultâneo com as primeiras notícias acerca da “catástrofe natural”. Hoje disseram-me que na segunda-feira já houve o tal “prós e contras”. Não vi e ainda não sei se o programinha que eu pago na fatura da energia elétrica tinha vozes do “prós” e vozes do “contra”. Aposto que sim. E isso, como é bem de ver, configura um esforço que tenta amenizar os cinco euros mensais da assinatura que não fiz do serviço. A gratidão é algo a que tenho de me obrigar
 Os debates e artigos acerca da “tragédia” sucedem-se. As negociatas murmuram-se de permeio (400 milhões de euros para pagar o quê? Cheira-me a submarino. Num qualquer país civilizado quem sabe se não haverá acusados na qualidade de corruptores. Por aqui, quem foi às "compras" com dinheiro alheio sumir-se-á em fumos espessos. Tem sido assim, sempre assim).
Tenho a impressão de que a seleção jogou hoje. Um colega acompanhava os trabalhos com jogadores em full screen. Ainda não sei o resultado. O que é certo é que mais dia, menos dia vai chover.

Numa imensa tristeza, no receio mórbido de ver confirmadas à linha todas as minhas certezas, continuo a pensar que toda aquela gente morreu em vão. Com muitos beijinhos e “afetos”. Sem piedade ou dó sincero.


3 comentários:

Artur Campos disse...

É necessário sempre alguém proclamar que o rei vai nu...

Mercador de trampa disse...

Eu também quero um ananase e afilhado do tiririca

The Mask disse...

E tu o que fizeste para mudar isto?
Este país de Velhos do Restelo especialistas de obras feitas...