quarta-feira, 16 de agosto de 2017





















"...I guess I could be pretty pissed off about what happened to me... but it's hard to stay mad, when there's so much beauty in the world. Sometimes I feel like I'm seeing it all at once, and it's too much, my heart fills up like a balloon that's about to burst... And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain and I can't feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life... You have no idea what I'm talking about, I'm sure. But don't worry... you will someday."

Alan Ball

angela mccluskey


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

de como nenhum povo é tão bom a odiar-se a si mesmo quanto o português mas que nenhum estrangeiro caia na tentação de o depreciar: recomendações para turistas





















Comentando uma grosseira descrição da essência do culto do Divino Espirito Santo - como se fora apenas distribuição de pão, vinho e carne, sem reclamar nada em troca - um italiano de que não cheguei a ver rosto (muito importante, esta coisa da observação dos rostos) -, sem grande empenho e talvez apenas a cuidar que estaria a ser gentil, voluntariou a confissão de qualquer coisa como “nada que se possa ver em Portugal”.
Dei-me por contente em apenas ouvir pela janela aberta. Porque fervi: “Olhem-me este filho-da-puta… É bem certo que a Itália não existe verdadeiramente para um italiano; para ele há a Sicília, há Milão e uma porrada de dialetos com tudo o que estas coisas da língua implicam. Mas há também um ror de coisas que este cabrão não sabe acerca do sítio em que veio parir disparate.” Pensei eu com os meus botões.
Se há coisa que eu sei de seguro é que os humanos são essencialmente iguais em qualquer canto em que a Terra calhe ser habitada. Foi o que disse há bem pouco com a mais absoluta sinceridade a uma jovem alemã com quem me sucedeu o desastre de perguntar-lhe se a sua mãezinha era judia. (Era bela como as flores, a rapariga. Mas isso agora não interessa).
Mas depois das verdades universais – porque a verdade não tem outra maneira de ser – há maneiras de ser que são pátrias. E passam pelo leite da língua. Por exemplo: não creio que outro povo à face da Terra saiba odiar-se a si mesmo tão vigorosamente quanto o português. Mas a merda fica séria se algum “estrangeiro” se embala na tentação de nos depreciar.
São tristezas que acontecem a todos. Só os ingleses eram alegres (isso mesmo, pretérito imperfeito…), nessa elegância de saberem rir de si próprios. Os franceses serão, talvez, os mais patéticos de todos na maneira de se acreditarem ser o que nunca foram. (E hoje então… )
E podia continuar por aqui afora, soubesse eu assim tanto acerca dos “outros”.

Bom, mas isso agora não interessa.
Voltando ao nosso umbigo e à boa maneira de um estrangeiro lidar com ele.
Porque o português tem a desgraça de - mais do que qualquer outro povo - adorar saber o que os “outros” pensam de si*, o estrangeiro não aclimado padece da tentação de ser hagiográfico.
Mau caminho. Como nos odiamos a nós mesmos, qualquer encómio parecer-nos-á refolho.
A maneira certa de um “estrangeiro” contender esta aflição em que os deixamos, aprendi-a eu na leitura e audição de entrevistas a “estrangeiros”. Nessas entrevistas calha-se muitas vezes ouvir ou ler um entrevistado com neurónios mais aplicados. E inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo, vai levar com a estocada de ser inquirido acerca do que pensa de nós.
Os mais lúcidos salvam-se assim:

(Breve hesitação – figurada com os três pontinhos no caso de entrevistas impressas. Mas convêm mesmo que seja breve porque, se muito arrastada, a malta desconfia logo de qualquer marosca.)

Depois, qualquer coisa como isto:

“- … Os portugueses são absolutamente geniais na sua capacidade de improvisação. Como é que vocês dizem? ….A ‘desenrascar!’”

Não haverá um único português que não entenda o verdadeiro significado de uma afirmação tão cortês: somos displicentes, deixamos tudo para a última hora, não planificamos, não estudamos as coisas, … Enfim, vamo-nos safando com uma mão por baixo, como os ébrios e as crianças.
Ou seja: é necessário que um estrangeiro seja capaz de nos descrever na nossa maneira de ser odiosos mas é imperioso que o faça com afeto e gentileza.
Em contrapartida, de um “estrangeiro” o português suporta estoicamente toda a espécie de patifarias e indelicadezas, toda a sorte de coisas que nunca estariam dispostos a consentir de um compatriota.

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Para um povo tão ansioso de saber o que os outros pensam de si, há até uma gorda bibliografia que trata de coligir tais coisas…

orkestra obsolete


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

"there's no place like home!" *


















* Alexandre Madureira, Galeria Leu, Munique, 2017

noticiários

Estive alguns dias sem noticiários (gosto muito).
Revejo a generala da proteção civil.
Já tinha saudades. Espeta o rabo para trás em aflição de quem entalou a coisa no fecho da braguilha, ensebada de como quem assa leitões, com muita competência informa a  pátria  de que tudo continua a arder no “teatro de operações”.
O tiririca lá anda, parece que desta vez o gajo do poucochinho lhe levou uns pasteis de belém, não fosse o tarado esquecer-se de quem é.

excerto do manuscrito encontrado no rei das enguias *

“Isto dos aviões da rayanair é pior que um autocarro paquistanês. Só que em vez de paquis a cheirar a cabra, está feito para carregar fufas inglesas, gordas, engelhadas, bêbadas e barulhentas. Nos casos mais sérios, estas gajas que andam para aqui a vender bolachinhas estão perfeitamente habilitadas a espetar-lhes com um pontapé nas mamas.

...

Pois é, meu amigo. Isto é mesmo assim.”

* tradução mais ou menos avacalhada do original em inglês

damien saez


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

“o venâncio”: do luxo ao meu género













Cirandava quando vi. Da entrada de uma casa, um senhor em oitentas descia uma rampa improvisada de tábuas, em coisa de 30º  e a cavalo numa scooter. A neta segurava-lhe o estribo posterior para que não se estatelasse. Sorriu-me em modo de quem diz “o velho é tonto mas eu amo-o”.  Encantado, devolvi-lhe o sorriso.
O Venâncio (viria a saber que era o Venâncio), cerca de 20 metros mais à frente, estaca a scooter em meio da via de sentido único e vai à  mercearia. Não terá demorado mais de 30 segundos mas os carros começam a apitar. O senhor Venâncio sai da mercearia de saco na mão com ar de “quero que vocês se fodam todos”. (vocês desculpem-me  o francês, mas o ar do Sr. Venâncio foi exatamente esse, tenham paciência).

Hoje vinha do Porto das Pipas onde fui por via de bilhete para São Jorge e deu-me a fome precisamente ali.
Gostei da fronha e pergunto o que há. A Antonieta debita oralmente o cardápio e mando-a parar no boca negra - um peixe que por aqui tem nome.
Vem-me fresco e de boa assadura, em paz de matrimónio com um jarro de branco "Ermelinda Freitas".
São rigorosamente seis mesas. Assistidas pela Antonieta Lourenço, filha e não neta do Sr. Venâncio, benfiquista encardido até aos ossos.
Todos os comensais são homens e, aparentemente, naturais da Terceira. Fala-se de mesa para mesa, entro em família e deixam-me. Sinto-me em pátria, bem como no céu. Em tudo aquilo, a Antonieta é a grande maestra. O Sr. Venâncio, a quem a filha - com infinita ternura bruta, a mais autêntica das ternuras -  consente  fazer de conta que trabalha, ajuda.
A certa altura, um senhor bem posto mas algo amolgado pelos anos  - depois de comer tranquilamente -, na hora de pagar a conta protesta que na sua carne só havia ossos. A Antonieta, como toda a gente, convencida que o senhor brincava, responde que fez de propósito para o senhor lá não voltar.
Não. O senhor que um dia será certamente o homem mais rico do seu cemitério,  falava a sério. A despropósito, diz que é rico e parece que chega a dizer o saldo gordo da sua conta bancária. A Antonieta convida-o a sair por 5€ ou até mesmo sem pagar nada.
Entretanto, entram alguns turistas de ambos os sexos.
Mas aquilo não é a sua pátria.
Em contrapartida, o Venâncio é o meu género de luxo.
Paguei o que me pediram: dez euros. Se me tivessem pedido trinta por aquela frugal refeição teria achado mais justo.
Mas já não seria “o Venâncio” em Angra do Heroísmo.
Como devia, fica na Rua do Espírito Santo, à direita de quem sobe da Praça Velha.

eilen jewell